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Paixão.

Brasil - Uma foto por post - Page 78O sol escaldante queimava suas costas e ele queria que aquilo parasse. Olhou para o alto. O suor a escorrer pala face fez seus olhos arderem e ele baixou o olhar mais uma vez.

– Ó Senhor! – exclamou ao cair novamente sobre o joelho já dilacerado.

Voltou a levantar com suor e sangue correndo em sua fronte e os olhos turvos.

– Não suporto mais, meu pai. Poupe-me.

– Cala assa boca suja seu fedelho, tu não vive falano que é cristo? Pois etão, mostra que é memu e não recrama.

– Mas pai, aquilo era um trabalho da escola.

– Que trabaio nem ma trabaio. O que eu quero é tu trabaiano na roça, ajudando eu mais tua mãe a bota cumida dentro di casa – retrucou o severo pai de Patrique, como ficou registrado graças à incompetência do sujeito do cartório.

– Pai!

– Patrique, já falei! Cala essa boca! Tu sabe o que o pastor acha desses negócio de treatro.

O garoto conseguiu levantar-se e correr até dentro da casa onde a mãe o acoitou.

– Para com isso homi, que amanha memu eu vô fala com a dona Zuleica e o Patrique não vai mais participa dessas coisa – falou Iracema tentando acalmar seu marido, Nonato.

– Tá, mais manda esse guri já lá, pra cuncertá a cerca que o seu Felipe já tá botano as manguinha de fora e qué cume um pedação do nosso terreno.

Dona Iracema deu um abraço no menino e pediu que ele não contrariasse o pai e fosse logo concertar a cerca. Deu-lhe um beijo e ele saiu correndo. Enxugando as lágrimas.

– Se ele pensa que vai me impedir de ser Cristo ele vai ver.

Patrique não apareceu para jantar aquela noite e tento Dona Iracema quanto o Seu Nonato quase não conseguiram pregar os olhos, pensando que talvez ele tivesse fugido de casa novamente. Seu Nonato sempre se sentia culpado depois das surrar que dava no garoto quando tomava umas a mais, mas sempre repetia a dose e certa feita o garoto escafedeu-se por uma semana, mas a fome o trouxera de volta.

– Carma muié. Amanha cedinho eu vô achar o menino e trago ele de vórta procê – falava o homenzarrão à esposa em tom tranquilizador.

– Eu tenho medo.

– Não fica assim. Cê sabe como ele é.

Seu Nonato parecia desolado, parado no portão.

Encontraram o garoto um quilometro rio acima. Dependurado pelo pescoço numa arvore segurando firmemente um crucifixo entre as mãos juntas.

A cidade fez luto e a peça nunca mais foi encenada.

Patrique foi o último menino a vestir o manto de Jesus Cristo do parco guarda-roupa teatral da Doba Zuleica, a única professora da pequena escola.

O povo agora faz romaria todos os anos para ver o tal manto exposto na igrejinha da cidade e pagar promessas ao Cristinho Patrique, como ficou conhecido na região depois de alguns relatos de milagres. Quanto ao seu Nonato e Dona Iracema… Ninguém sabe!

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MigX

Engenheiro, funcionário público, metido a escritor e ilustrador... Publicou na Quark, Scarium e e-nigma. Membro fundador da Oficina de Escritores, vem tentando sua própria jornada do herói na vida, e a viagem do escritor, nos blogs e na OE.

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