Outro do Caçador…
Como dizem… Um dia é da caça, o outro do caçador.
A noite estava fria.
O vento cortante soprava incansavelmente desde o por do sol, mas ele não parava. A fome o empurrava e o desejo de vingança tensionava seus músculos.
O céu estava completamente limpo e ele via estrelas, naquela noite, como em nenhuma outra. Elas brilhavam como fogueiras de tribos distantes. Seus olhos captaram um movimento.
“Desta vez será diferente…” pensou.
Posicionou-se com às quatro patas no chão e se lançou na corrida.
A criança mal percebeu o vulto negro que se aproximava e começou sua fuga desesperada.
Não gritou! Já sabia ser inútil. Derrubou latas de lixo, caixotes e tudo que pode encontrar pelo caminho, na esperança de atrasar ao máximo a fera que tinha em seu encalço, como vira o pai fazer a pouco menos de um ano, mas nada parecia poder parar a criatura. Era um mutante forte, todo negro como a maioria era, mas este se parecia mais a um animal do que aquele que seu pai caçara naquela noite de festa. Se ele estivesse aqui o final da história seria outro, pensou. Saltou uma enorme vala sentindo a respiração do mutante a suas costas e de uma rápida olhada, percebeu que ele tinha a envergadura de um touro, a cabeça quase humana e a agilidade de um tigre. Com a visão, sua confiança ficou ainda mais abalada e numa distração, tropeçou e caiu, ficando a mercê do perseguidor.
A criatura olhou bem nos olhos da criança, com um ódio incomum nos mutantes, e sem titubear dilacerou seu corpo, com movimentos rápidos e bestiais.
– Sangue se paga com sangue!!!!!! – gritou ao vento a criatura, com uma voz que parecia sair das profundezas do inferno. – Nem todos os dias pertencem à caça!
Escrito em algum lugar do passado, entre o verão de 1997 e 1997.
Ficou confirmado, um dia é da caça, o outro do caçador.