Deserto
Deserto, um conto de superação.
Caminhar sob aquele sol era extremamente desgastaste. Ainda mais para uma jovem como ela. Era frágil demais para aquelas areias.
Não tinha forças e nem experiência para enfrentar o grande deserto, mas tinha que prosseguir. No pontoem que se encontrava já não podia parar pois, se ali ficasse morreria com toda certeza. Só lhe restava prosseguir. Andar… andar… quem sabe chegaria ao seu destino.
O primeiro dia já estava terminando. Havia resistido bem, a pesar de seus poucos anos e de nunca ter passado, um dia, longe de seus pais.
O deserto é generoso para quem sabe ler seus sinais. Não era seu caso, no entanto, mas conseguira extrair dele neste primeiro dia o suficiente para encontrar-se bem. Levava consigo apenas uma pequena sacola, que todos de sua tribo traziam amarrada a cintura com um kit para sobrevivência no deserto e um traje para a noite. Da sacola retirou um apequena barra nutritiva rica em carbo-hidratos, proteínas, gordura e uma gama completa de vitaminas e sais-minerais. A principio usaria apenas uma capsula por dia, preferencialmente no inicio da noite antes de recomeçar a caminhar. Hoje seria diferente. Caminhara durante o dia porque isso era necessário. Tinha que afastar-se, mas agora montaria sua toca sob a areia e ali passaria a noite; que normalmente usaria para andar; e o dia seguinte.
Não precisava ter pressa, pois havia encoberto bem seu rasto e o caçador não a seguiria. Sua luta agora era para sobreviver ao deserto e para isso deveria seguir, a risca, o que aprendera com os velhos, ou sabia que não conseguiria.
Introduziu o compactador na areia o mais fundo que pode e se afastou. Em uns trinta segundos o pequeno aparelho iniciou a reação que lhe dava o nome e compactou a areia a sua volta. O processo não gerou o resultado esperado. O que era para ser um abrigo subterrâneo acabou sendo apenas um grande buraco na areia. Era apenas uma menina e não enterrara o compactador fundo o bastante. O processo repetiu-se sem êxito por três vezes antes de lograr o intento e o desgaste não programado foi grande. Apesar de o sol já Ter se posto a alguns minutos o calor ainda era intenso e ela transpirou muito perdendo uma água que poderia ser a diferença entre a vida e a morte mais tarde, pois teria que consumir mais de suas reservas e cada migalha fazia diferença naquela situação extrema em que se encontrava.
Finalmente estava abrigada, sem aquele vento persistente a golpear-lhe o rosto delicado de menina. Estava muito cansada e adormeceu logo após ligar o pequeno aquecedor que levava com o kit do deserto, pois o frio noturno nas regiões interiores era pior que o calor diurno e mais mortal.
Ao acordar sentiu-se muito melhor. Abriu a passagem que levava ao deserto, sábio e impiedoso, para saber quanto havia dormido. O sol já estava a pino. O que indicava que uma noite e meio dia tinham transcorrido enquanto ela dormia. Ingeriu a segunda barra nutritiva de sua jornada . o aquecedor já havia-se desligado automaticamente com o aumento da temperatura e o ambiente estava agradável. Ela ainda tinha umas sais ou sete horas para descansar, o que fazia-se melhor dormindo, ouviu a voz do pai em sua mente , mas agora que não estava tão cansada não adormeceu rapidamente. Ficou alguns minutos, antes de dormir, pensando em sua aldeia, seus pais, avós, amigos… Não chorou! Isso não era habito entre sou povo. A água era muito importante para ser desperdiçada com lágrimas, mas seu peito doeu.
Uma hora após o por do sol ela estava pronta. Encobriu todos os sinais de sua permanência ali e retomou a caminhada.
Durante a noite o deserto parecia-lhe muito mais amigo. Era assim que ela aprendera a encara-lo. Como um bom amigo que tudo prove e em troca exige respeito. O deserto noturno era cheio de vida para seus olhos habituados a ver os pequenos animais que como ela e sua tribo só interagiam com ele naquele período. Encontrou uma plante espinhosa e de aparência bastante grotesca, mas que sempre que avistada era considerada pelos viajantes como uma benção, um bom presságio, um sinal de que os deuses estavam do seu lado. Com cuidado para não se ferir com os espinhos venenosos arrancou uma das varias bolas espinhentas que formavam a planta. Perfurou a superfície com os dedos e sorveu avidamente o liquido fresco e rico em nutrientes que vertia de seu interior. Ela sabia que aquela planta lhe daria mais algumas horas para chegar.
Outra noite e outro dia passaram e seu rumo era certo. Sabia ler as estrelas como nenhuma outra criança de sue povo e melhor que alguns adultos mais indolentes. Não se perderia; mas suportaria a viagem?
Ela estava mais cansada do que imaginava que estaria e sentia mais fome do que previra. Uma única barra nutritiva por noite não seria suficiente e se consumisse mais que isso não teria suprimentos ate o fim da jornada. Preocupava-se ao perceber que já sentia-se enfraquecida e o caminho pela frente ainda era longo.
Só lhe restavam duas barras e calculava que ainda tivesse pelo menos três noites de caminhada pela frente, talvez quatro, já que com certeza não tinha o mesmo ritmo de um adulto e agora estava cada vez mais lenta e com a visão menos aguçada a cada passo que dava. Sua determinação também já não era mais a mesma e isso ela aprendera muito bem era o principio do fim.
Não podia desistir! Era a função de seu pai e com ele morto seria sue missão, pelo menos desta vez, até que encontrassem outro para o trabalho. Tinha que alcançar o vilarejo de O´kay. Avisar o que estava acontecendo no extremo do deserto e salvar os últimos de seu povo que ainda estavam vivos.
Andou por algumas horas perdida em pensamentos quando por distração passou próxima demais de um aglomerado de pedras sem observar atentamente a vizinhança.
Quando ouviu o rugido já não tinha outra alternativa senão correr.
Era um solní, o animal mais temido em todo o deserto. Sua velocidade e voracidade despertavam medo em qualquer habitante do lugar e poucos que já haviam visto um tinham escapado para conter a alguém.
Ela teria que correr com todas as suas forças, gastar as ultimas reservas. Correr! Correr! Correr! Não podia nem mesmo pensar em mais nada. Já podia ouvir a respiração do animal atraz dela. Era grande, todo negro o que indicava tratar-se de um animal bastante jovem. Media aproximadamente um metro e meio e corria nas quatro patas como um enorme cão.
Os solnís são animais de estrutura leve. Em geral magros e com garras e dentes extremamente afiados; orelhas longas e pontudas sempre erguidas; olhos totalmente negros adaptados para ver na escuridão do deserto a noite. Nunca um foi visto durante o dia. Dizem que escondem-se nas cavernas do deserto profundo, mas ninguém atreveu-se a sair em seu encalço.
Quando ela acreditava já estar tudo terminado tropeçou e caiu num poço entre os pedras, bateu a cabeça e desmaio. O solní quase caiu também, mas conseguiu evitar a queda e foi embora depois de esperar por algumas horas
na beira do poço a saída da menina que ainda encontrava-se inerte lá no fundo.
Um pouco mais tarde despertou sobressaltada com muito calor e a boca seca. Percebeu que o dia já havia começado e teve que ingerir outra de suas barras nutritivas. Agora do lhe restava uma. Precisaria de um milagre para escapar com vida!
Começou logo a tentar sair do buraco, pois se o sol escaldante a pegasse ali, sem poder usar o compactador nas pedras, seria seu fim chegando mais cedo. Quando levantou do chão sentiu uma forte dor na cabeça no lugar onde golpeou-se na queda e percebeu o pior. Havia torcido o tornozelo.
Não fora difícil para ela escalar a parede do poço e chagar a superfície mesmo com a torção, mas quando chegou ao alto percebeu que se havia aprofundado muito entra as pedras e em suas condições demoraria muito para chegar até as areias macias para poder utilizar o compactador e construir um abrigo. Olhou a sua volta e logo avistou uma sombra que com alguma sorte seria uma caverna na qual poderia abrigar-se durante aquele dia.
Começou a caminhar em direção a sombra com dificuldade, mas com as pedras altas a servir-lhe de apoio e resguardando-a do sol não tardou a chegar.
A caverna não era muito profunda e o calor ali seria bastante ruim quando o sol estivesse a pino, porem era o que tinha para abrigar-se e deveria fazer o melhor.
Descansou um pouco apoiada em uma pedra no interior da caverna enquanto decidia o que fazer. A entrada da caverna não era muito grande. Poderia ser facilmente coberta por algum pedaço de tecido. Esvaziou a sacola que carregava, amarrou o compactador na corda que tinha na cintura e guardou a ultima barra nutritiva em um pequeno bolso de sua roupa para o deserto que vestira antes de afastar-se da vila.
Era uma roupa estranha que destinava-se a reter e reciclar todos os líquidos do corpo. Tinha a cor da areia com aparência de acolchoada devido as cavidades de armazenamento. Ate mesmo o ar que saia dos pulmões era exalado pelas narinas num tubo que o fazia passar pelo traje a fim de que dele, antes de jogado na atmosfera, fosse retirada toda a água. Rasgou a sacola e a pendurou na estrada como uma cortina. A caverna escureceu e a garotinha sabia que isso significava menos calor entrando e mais tempo de vida para ela.
A cegueira da escuridão logo passou e ela observou uma passagem apertada pela qual talvez nem fosse capaz de infiltrar-se, porém arrastou-se lentamente até a pequena fenda na rocha tentando desgastar-se o mínimo possível. Já fazia bastante calor e a cada movimento sentia que suas chances diminuíam.
Começou a tentar atravessar e percebeu que era ainda mais estreita do que imaginara. Pensou em voltar, mas estava em uma posição em que precisava concluir a travessia para poder virar o corpo e voltar. Não conseguiria sem o auxilio dos olhos. Sua perna prendeu entre duas pedras e o nervosismo, provocado pela falta de espaço e o calor, tornou o trabalho de se soltar muito mais penoso do que deveria ser. Sua respiração era ofegante e transpirava muito.
Finalmente chegou ao outro lado. Sabia que tudo aquilo havia saído mais caro do que o planejado. Depois de todo aquele esforço e do que ainda teria pela frente para sair dali não tinha praticamente chance alguma de alcançar O´kay.
Permaneceu recostada na beira da passagem com os olhos fechados e respiração ofegante esperando um pouco para que o cansaço lhe desse uma trégua. No momento em que abriu os olhos quase não acreditou no que viu. Era um agrupo de chamich, uma planta extremamente rara e de alto potencial hidratante e nutritivo. Soube imediatamente que havia ganho mais uma batalha. Poderia guardar sua ultima barra para quando voltasse ao deserto e poderia descansar um ou dois dias enquanto seu tornozelo se recuperasse. Esperou até que sua respiração se acalmasse um pouco e devorou dois grandes e suculentos gomos da planta. Os pequenos espinhos macios que possuía provocam cócegas no interior de sua boca que somados a sensação de frescor eram inigualáveis. Estava muito cansada e logo adormeceu saciada.
A escuridão era total e ela logo concluiu que já era noite quando acordou. Adormeceu novamente em poucos minutos os quais passou saboreando outro grande gomo da abençoada planta.
O calor da manha a acordou novamente. Agora porem ela já estava sentindo-se bem melhor. Comeu novamente, mas desta vez apenas meio gomo pequeno. Sabia que seu corpo aproveitaria melhor o alimento de fosse ingerido em pequenas quantidades no decorrer do dia. Apenas dormia e se alimentava e sentia as forças voltarem pouco a pouco.
Dois dias passaram e ela devorou quase todo o “canteiro” de chamich. Colheu os que restavam e os atirou através do buraco na parede para o outro lado da caverna, o da entrada, onde poderia Ter chagado rapidamente desta vez sem a dor no tornozelo e revigorada com o descanso e o alimento, mas não foi bem assim. Estava um pouquinho mais gorda, ou melhor, com a hidratação sou volume aumentara ligeiramente o que dificultou ligeiramente sua saída. Nada que chegasse a preocupa-la.
Na abertura da caverna podia pôr-se de pé. Bateu algumas vezes o calcanhar no chão par testar a recuperação do tornozelo e com alegria sentiu que estava tudo bem. a noite já havia chegado a uma ou duas horas a julgar pela temperatura. Retirou a cortina improvisada com sua sacola e tentaria agora torna-la novamente uma sacola. Colocou os gomos de chamich no meio do pano estendido no chão e o amarrou em forma trouxa. Estava pronta.
Levou alguns minutos par atingir a areia e nesse tempo pode perceber que afinal havia tido sorte . sentia-se muito mais capaz de seguir em sua missão agora e três dias afinal não fariam diferença, pois os caçadores não conheciam o deserto e nem mesmo tinham certeza da existência da lendária O´Kay. Olhou para o céu e logo localizou as estrelas que a guiariam pelo resto do caminho. Calculava que agora com novas forças em três, no máximo quatro, noites chegaria.
Encontrava-se novamente no abrigo de areia compactada. Duas noites passaram e os gomos de chamich haviam terminado. Estava indecisa sobre usar sua ultima reserva de alimento ou deixar que seu corpo exigisse os nutrientes daquela pequena barrinha que tinha na mão. Decidiu comer sua reserva naquele mesmo instante. Seu corpo a assimilaria durante o sono e pela noite estaria mais preparada para a caminhada que ela ansiava concluir.
Durante aquele período de sono sonhou som O´Kay, que nunca vira, e com sues pais. Estavam todos na festa da colheita e nada dos horrores de dias atras acontecera. Ela sentia-se novamente a criança que sempre fora e a felicidade habitava seu pequeno coração como sempre antes. Seus pais dançavam abraçados e riam muito. Havia outras crianças correndo por toda parte. Ao acordar não pode evitar o pranto, mas soube controla-lo rapidamente.
Horas passaram e ela já estava tomada pelo cansaço novamente sem ter o que comer e depois do sonho a dor da perda não deixara mais seu peito. Exausta, sentou na areia fria da noite e chorou como nunca o fizera antes. Chorou desesperadamente sem tentar parar sentindo-se abandonada, perdida e só. Não tinha mais forças para caminhar, mas quando olhou para o lado percebeu uma fraca luminosidade vermelha que surgia por detrás de uma enorme duna. Utilizando forças que já não sabia de onde vinham, correu, contrariando todas as regras de sobrevivência no deserto. Quando chegou ao topo da duna ofegante e meio tonta, mas cheia de felicidade acreditando finalmente ter alcançado seu objetivo, O´Kay, a visão foi forte de mais para aquela pequena e valente menininha e ela desmaiou.
O´Kay estava em chamas. O caçador inexplicavelmente chegara antes dela. Eram chamas de varias horas atraz. O silêncio reinava. Só ouvia-se o crepitar do fogo. Em muitos lugares não restavam mais chamas e sim restos queimados de casas e cinzas. A visão seria desconcertante para qualquer um.
Ela ardeu em febre e delirou por um dia inteiro. Teve sonhos bons e pesadelos horríveis. Riu e chorou, mas quando abriu os olhos acreditou estar morta e seu coração quase parou. Sua cabeça repousava no colo de alguém que a olhava como só uma mãe poderia olhar alguém e que cuidara dela durante todo aquele dia infernal. estava lhe afagando os cabelos e chorava assim como ela com um sorriso nos lábios.
– Tudo bem! esta com a mamãe novamente. – disse a figura que a afagava e por cima do ombro dela pode ver seu pai com um sorriso ainda maior a fita-la.
– Tudo acabou. – disse com voz suave e tranquilizadora. – Está tudo bem agora.
Quando finalmente sentiu-se bem para ir ate a janela viu os corpos do caçador e seus homens dependurados na praça central de O´Kay e a festa com que sonhara no deserto estava acontecendo realmente.
Nunca soube os detalhes do que se passara ali.
FIM…