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Assim nascem as flores.

Pessoal, transcrevo abaixo, depoimento de uma mãe que perdeu o filho no Morro do Baú, Santa Catarina.
É muito emocionante. Não confirmei sua veracidade, mas a profundidade da mensagem é impressionante.

Assim nascem as flores.

Seus pais Arno e Zélia A Nardini , ambos trabalhadores de uma malharia em Gaspar, S.C, declaram que ele sempre foi um menino diferente e especial, até na forma como apareceu em suas vidas. Na noite de 22/04/2004, foi deixado na porta do casal, em uma caixa de papelão, com um bilhete: “Cuide bem do meu anjinho e ele transformará sua vida” .

Aqueles olhos de um azul profundo e aqueles cabelos encaracolados nos deixaram completamente apaixonados. E foi esta paixão que fez com que o Juiz nos desse a guarda provisória e mais tarde a definitiva.

Com pouco mais de oito meses deu seus primeiros passos. Quase morremos de susto quando descobrimos aos três anos e meio , que ele sabia ler. í‰ um menino diferente, afirma Arno. Ele diz coisas de gente grande.

Tem verdadeira adoração por jardins e flores, sendo as rosas, as suas preferidas. Seus enormes olhos azuis parecem luzes intensas quando vê uma delas.

í‰ apaixonado pelos avos, os pais do Arno, pois os meus pais já se foram, diz Zélia. O interessante é que nunca os chama de vovô ou vovó. Sempre se refere aos dois como “as minhas florzinhas” e toda semana tem que visita-los, pois com eles construiu um jardim, que tem banco, iluminação e até uma placa de madeira entalhada pelo seu João, pai do Arno”.

Na tarde desta sexta feira , quando o pegamos na creche, notamos que estava eufórico e queria por toda lei ir para casa dos avós, pois disse que três rosas estavam para desabrochar e ele não podia deixar de ver. Tanto insistiu que apesar daquela chuva toda fomos no sábado de manhã leva-lo para o sí­tio dos avos .

Mal chegamos, ele disse pra mim e pro Arno, que deví­amos voltar logo, pois estava chovendo e podia não dar tempo, pois ele iria ficar para ver as rosas abrindo. Insistiu tanto que assim fizemos, deixamos ele lá, para meu sogro trazer no domingo.

Quando estávamos saí­ndo pela porta, ele pediu para não ficarmos tristes, por ele ficar com suas duas florzinhas e que um anjinho iria me dar uma florzinha também.

Ao ver na TV, no domingo de manhã os estragos causados pelos deslizamentos no morro do baú e ver o estado em que ficou o sí­tio do meu sogro, entramos em desespero, mas não querí­amos acreditar que o pior tivesse acontecido, mas a dura realidade nos fez acordar deste sonho ruim.

As equipes de resgate encontraram abraçados na lama do jardim, meu sogro, sogra e meu pequeno Thiago, juntos a um galho de roseira, que inexplicavelmente estava intacto, com três botões de rosa. Sob os corpos a placa entalhada pelo meu sogro, com os dizeres:

“Renascemos de novo, do nada, da lama do lodo”.

Não resisti a tanta dor e fui levada ao hospital Santa Izabel e lá depois de medicada, foi constatado que estou grávida. Daí­ entendí­ as palavras do meu Thiago quando nos despedimos, que um anjinho também me daria uma florzinha.

Que a mensagem entalhada na placa do jardim do meu Thiago, seja o lema para todos aqueles que deixaram um pedaço de suas vidas sob os escombros desta tragédia.

Zélia Nardini.

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MigX

Engenheiro, funcionário público, metido a escritor e ilustrador... Publicou na Quark, Scarium e e-nigma. Membro fundador da Oficina de Escritores, vem tentando sua própria jornada do herói na vida, e a viagem do escritor, nos blogs e na OE.

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