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Tempestade

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Soprava um vento suave a beira do mar. A noite era de lua cheia. O céu estava limpo e estrelado. Fazia muito frio.

Era uma noite agradável como poucas. A meses que a tempestade não dava trégua, mas a ele já não importava, já não trazia alegria. Tudo que lhe era caro estava perdido. Perdido para sempre. A suavidade dos dias passados fora-se. Ele estava só!

O medo enchia-lhe o peito e o deixava paralisado. Ali! Sob a copa de uma árvore passara os últimos dias. Encolhido. Só saindo do abrigo que a árvore lhe proporcionava para procurar comida uma vez por dia. Às vezes nem tanto.

Com a trégua das tempestades podia ouvir claramente o som das ondas e o farfalhar das folhas. Aqueles sons o acalmavam e ele lentamente fechou os olhos, sua respiração tornou-se mais profunda os pensamentos mais lentos e obscuros e finalmente, adormeceu.

Não estava mais no mesmo lugar. Não era mais a mesma figura deprimente de instantes atrás. Era agora um homem forte, senhor de si, de perfil aquilino e olhos extremamente claros; de um azul quase branco. Com seus quase dois metros de altura, colocaria medo no mais imponente guerreiro. Tinha uma longa cabeleira loura, espessa e embaraçada que era atirada de um lado para o outro pelo forte vento que o açoitava. Fazia muito frio, mas estava protegido por um longo poncho negro de tecido rude e desfiado na parte de baixo.

Fitava o horizonte distante com o olhar frio, perfeito em seu rosto anguloso e coberto por uma barba bem aparada. Nesse instante fechou os olhos e contemplou o vale a sua frente com o olhar interior. Via tudo o que vai antes. As montanhas distantes e seus picos nevados, o rio correndo veloz, centenas de metros abaixo, a vegetação rasteira, alguns animais e a beira do penhasco em que estava.

Abriu os braços e os olhos e se atirou.

Seu corpo caia rapidamente. Com os braços abertos e seu poncho negro parecendo grandes asas, ele adquiriu a aparência de uma gigantesca ave predadora em mergulho para aplacas sua presa.

Quando já estava próximo ao chão seu corpo deslizou como uma folha capturada por uma corrente de ar, desenhando uma parábola voltada para cima e ganhando altitude. Começou a gargalhar e com os olhos bem abertos, observou tudo a sua volta. Sentia o ar frio percorrer-lhe o corpo por debaixo do poncho, mas isso não o incomodava. O largo céu estava completamente azul e enchia-lhe o peito com profunda felicidade.

Com leves movimentos do seu corpo, mudava a direção do seu voo e essa domínio da situação dava-lhe muito prazer. Deslizou por cima dos bosques, deu rasantes sobre as savanas e jardins e passou tão próximo às flores que pode sentir o seu aroma. Depois subiu tão alto, que pode contemplar os picos gelados das montanhas lá embaixo, como se fossem pequenos flocos de neve. Sobrevoou geleiras, vilas e montanhas, vales e planaltos pela extensão do mundo e regressou ao seu vale, no instante entre um segundo e outro.

Agora estava seguindo o curso do rio. Um rio de águas velozes e transparentes, que o conduziam por entre desfiladeiros íngremes e vales desolados. Ate que ao longe, avistou o maior de todos os desfiladeiros. Seu coração encheu-se de amargura e medo. Uma amargura e um medo incontestáveis. Suas feições poderosas tornaram-se tristes e foi alcançado por um desejo incontrolável de voltar. Então descobriu-se incapaz de faze-lo.

Já não tinha o controle em suas mãos. O voo, que tinha seu próprio curso agora, seguia rumo ao mar azul. O céu foi se encobrindo de espessas nuvens negras. Raios e trovões retumbavam por toda parte. O mar já estava visível e o fim do desfiladeiro se aproximava. Começou a ganhar altitude e quando finalmente saia do desfiladeiro e pode avistar a praia, lá viu uma árvore. Debaixo da árvore pode perceber um vulto indistinto que, a pesar de distante, pode reconhecer. Não podia deixar de reconhecer a si mesmo. Isso fez seu peito doer e lhe freou a respiração por alguns instantes, então com um grande esforço da vontade, conseguiu ganhar altitude. E mais… e mais… Até passar as nuvens e avistar o sol.

Um trovão ressoou.

Abriu os olhos.

Ele era o mesmo outra vez. A chuva recomeçara. A fome ainda estava ali.

Fechou os olhos e uma lagrima furtiva forçou seu caminho.

Escrito em outubro de 1996.

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MigX

Engenheiro, funcionário público, metido a escritor e ilustrador... Publicou na Quark, Scarium e e-nigma. Membro fundador da Oficina de Escritores, vem tentando sua própria jornada do herói na vida, e a viagem do escritor, nos blogs e na OE.

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