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Um Dia Quente e Uma Noite Fria.

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Ela está grávida, espera com ansiedade a chegada do seu herdeiro, mas o mundo árido e decadente em que vive, não parece um bom lugar, ela precisa resistir e ter esperança nas mudanças, pois algo lhe diz que tudo pode ser diferente. Nesta história repleta de memórias, velhas emoções e esperança ela conseguirá sobreviver e abrir caminho para o futuro?

Ela estava completamente só, agora. Tudo que lhe restava era o vento. O vento e aquela barriga! Já estava no fim, ela achava, porém, não tinha certeza. Não podia ter!

Sentada à janela, olhava para aquele deserto no quinto planeta de um sistema moribundo. Com a cor da tarde vieram-lhe as lembranças. Como sempre!

Tudo estava colorido em sua mente, limpo. O ar era úmido e suave. A temperatura agradável. Suas escamas brilhavam a luz dos lampiões. Todos dançavam alegremente e se divertiam. Bebiam e jogavam, sem culpas.

A música que tocava era antiga, no entanto, todos a conheciam. Ela dançava com um e com outro, sem fazer distinção. Satisfazia todos os desejos. Não havia porque se preocupar… Nesse instante, o uivo de uma rajada mais forte de vento a trouxe de volta.

O ar era seco e trazia dor. O calor insuportável e do colorido, só restava uma cor… O vermelho!

O sol, já quase desaparecia por trás das montanhas ao longe. Vermelho, quente e implacável. Já destruíra tudo que antes ali houvera. Plantas, animais… tudo… Só restavam: aquela casa grande em ruínas onde se encontrava, uns poucos pedaços ainda visíveis da redoma destruída com a explosão e outros três edifícios desertos, à distância.

O restante era pó, pó… somente pó. A cada rajada mais forte do vento, tanto pó era arremessado ao ar, que nada mais podia ser visto, como em uma intensa neblina.

Quando a água começou a tornar-se um elemento precioso naquele planeta dos confins da galáxia, as guerras uniram-se ao sol, que vinha mais instável a cada novo ano, na destruição do velho mundo. As coisas que o sol, tornando-se uma gigante vermelha, recusava-se a tocar, as bombas se encarregaram de destruir.

Ela, a última sobrevivente de uma longa linhagem de filosofo-cientistas, era a única de sua família com a capacidade de gerar aquela criatura. Um passo a mais na evolução de sua raça. Não sabia se, em outras paragens, outras estariam passando pelo mesmo, mas ela estava a ponto de sucumbir.

Já pensara em tirar a própria vida várias vezes, porém nunca tivera coragem o bastante. Aquelas horas eram as mais duras. No final da tarde. Muitas lembranças. Muitas saudades de um mundo que jamais voltaria. A menos para seus descendentes. Adaptados, durante a gestação, pelas mutações provocadas pelo próprio ambiente, encontrariam nesse mundo, que era para ela terrível, um bom lugar para se desenvolver. Esse pensamento a enchia de forças para resistir.

Os olhos seriam capazes de ver muito além daquela vermelhidão. As narinas, não se ressentiriam com aquela poeira, pelo contrário, encontrariam prazer no contato com ela. A água, hoje tão valiosa e desejada, poderia ser repugnante ao seu paladar.

Por tudo isso precisava resistir.

Quando a última rajada esmoreceu e a poeira baixou, o sol já havia se posto. Um calafrio sacudiu seu corpo, mesmo com o calor ainda restante, pois a lembrança do frio que a noite traria era desencorajadora.

Ela levantou com dificuldades o corpo curvado, de seu assento. A pequena cauda estremecendo com cada uma das ferozes ferroadas de dor. Caminhou, não com menos esforço, até uma construção rudimentar, a base de pedras mal talhadas, que fazia às vezes de lareira, para atear fogo aos pedaços de pau seco que ali deixara, na madrugada anterior. O frio chegaria rápido!

Quando caminhou em direção à porta, pôde observar a delicada nuvem de poeira que seus passos levantavam. Poeira fina era arremessada à frente formando a pequena nuvem, que gradualmente se dissolvia e retornava ao chão de onde saíra, com uma lentidão que combinava com os dias. Sentiu um leve repuxo na barriga de pele azulada e pensou que talvez fosse naquela noite. Queria acreditar que seria. O sofrimento tinha que ter seu termo.

Olhou para a casa abandonada. Há tempos não arrumava nada. Os recipientes, onde costumava se alimentar, acumulavam-se em uma bancada de pé quebrado, apoiada precariamente em dois blocos de granito, sob a janela oposta. Essa situação não a incomodava mais. Tudo já era passado. Nada mais importava. Só resistir até o momento certo.

As horas foram passando e a esperança, de que tudo terminasse logo, foi se dissipando. Parecia que, mais uma vez, sentiria o nascer do sol com aquela barriga enorme a pressionar sua vida vazia. O suplício ainda não acabaria. A dor derradeira não viria e o pensamento de mais um dia naquele mundo terminal fazia suas entranhas estremecerem.

Teria que sair, ainda no frio da madrugada, para conseguir alguns gravetos para aquecer a noite seguinte. Aguentar o calor sufocante racionando água. Suportar a solidão e a dor de ter sido mais uma, na manada que caminhou cega para o abismo.

Suas escamas roçavam ásperas e secas, umas nas outras. Ela, que nunca fora de ter pena de ninguém, agora se compadecia de si mesma. Tão bela no passado de festas e futilidades. De escamas tão brilhantes e espírito tão livre. Sentia-se agora, um réptil do deserto profundo. Não se via há muito tempo, mas tinha certa consciência do estado em que se encontrava. Podia sentir a aspereza de sua crista ao deslisar por ela seus dedos nervosos. Ouvia o som estranho que fazia ao andar, com as escamas dos seus membros inferiores sangrando. Partiam-se vez por outra, mas tudo isso nada seria, não fossem a barriga, o calor dos dias e o frio cortante das noites.

Buscava refúgio no passado e isso a fazia pensar no futuro. Como seria seu mundo quando tomado pela geração mutante?

Impossível imaginar. As mutações não seriam apenas biológicas. O aparato sensorial diferente faria, dessa nova geração, uma raça completamente diversa daquela que a estava gerando. Pensariam, sentiriam e agiriam, de acordo com seus novos sentidos, os quais ela não podia predizer, e nem mesmo saberiam de tudo que se passou. Do caminho percorrido até ali.

Cometeriam os mesmo erros?

Deixar-se-iam levar, ou encontrariam o verdadeiro caminho? O caminho do qual agora ela tinha consciência, mas que já não poderia trilhar.

Não havia forma de alertá-los.

Ninguém restaria para contar aos novos como fora no passado. Tudo teria que recomeçar.

Um recomeço é sempre, uma nova oportunidade. Uma oportunidade de acertar. De olhar para o céu e reconhecer no universo um caminho a percorrer. Perceberiam que não eram os únicos? Conseguiriam aprofundar o mistério?

Quando os do seu povo perceberam que o negro da noite escondia mais que lampiões distantes – milhões de possibilidades e mistérios a serem resolvidos – compreenderam que o universo é um ente em desenvolvimento. Que a inteligência é um dos caminhos dessa entidade tentando desvendar a si mesma, já não havia tempo. O mesmo universo já decretara sua sentença.

Condenados!

Porém algo ainda pôde ser feito. Nada que pudesse mudar a sentença, mas desviar ligeiramente seus resultados.

Um grupo, do qual ela fez parte, trabalhou em procedimentos genéticos, direcionando certas capacidades intrínsecas de adaptação, para possibilitarem o que estava acontecendo. A gestação de uma criatura que guardaria determinadas características da mãe, tais como, inteligência e outras aptidões, consideradas como sendo o diferencial da espécie, e incorporaria outras, desenvolvidas em laboratório, com o intuito de possibilitarem a existência no novo ambiente.

O processo fora disparado e agora estava próximo do seu fim.

Cinco horas após o cair da noite, com os ventos lá fora duas vezes mais fortes que na anterior e o frio característico, pior do que jamais fora, veio a dor derradeira. A criatura escamosa deitou-se e contorceu-se no chão. Emitindo apenas um único gemido, viu seu ventre rasgando ao meio, seus fluidos corpóreos escorrendo pelo assoalho empoeirado e finalmente pode ver sua cria, perfeita, saudável e forte, pronta a sobreviver naquele mundo, que para ela era tão duro e inóspito. Havia triunfado! Havia suportado tempo suficiente toda aquela dor para dar à luz a nova criatura, adaptada àquele mundo. Capaz de ver e sentir toda sua beleza. Agora era hora de alimentar sua criança.

A pequena criatura rastejou para fora do ventre aberto de sua mãe até chegar à garganta, onde parou, e com uma única mordida, dilacerou a traquéia. A mãe, em poucos instantes, estava glorificada, asfixiada, sabedora de ter cumprido seu papel. A evolução seguiria seu curso.

A refeição durou umas seis ou sete horas e nutrido, o pequeno novo ser, hibernaria por uns dois ou três meses. Até lá, já teria desenvolvido seu corpo o suficiente para ir buscar comida lá fora.

O sol já tornava a nascer!

MigX

Engenheiro, funcionário público, metido a escritor e ilustrador... Publicou na Quark, Scarium e e-nigma. Membro fundador da Oficina de Escritores, vem tentando sua própria jornada do herói na vida, e a viagem do escritor, nos blogs e na OE.

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