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Senador

senador– Bispo para dama seis – anunciou o homem de bigode, impassí­vel, deslocando uma das peças no tabuleiro.

O outro homem ajeitou os óculos, de correção de sua cegueira congênita, e observou incrédulo a disposição das peças.

– Você venceu novamente – comentou desanimado. – Não sei porque ainda jogo com você.

– Porque sabe que tem muito a aprender comigo!

Ambos levantaram-se. O vencedor desligou o interruptor e a holografia do seu adversário se desfez como se de fumaça.

– Vitória! – pensou – que sensação familiar.

O tabuleiro de xadrez era seu território. Lá, como na vida, sempre conseguira derrotar os inimigos. A vida era, para ele, como uma enorme e intrincada partida de xadrez e ele era um mestre. Sempre tinha uma estratégia para cada situação. Sempre derrotava os inimigos. Sim, todos eram seus inimigos. Um movimento em falso e os abutres desceriam para comer a sua carne. Às vezes, entregar um peão ou até mesmo um cavalo ou uma torre poderiam ser a chave para ganhar uma partida. Dependendo das circunstâncias, até mesmo entregar a rainha poderia ser a melhor saí­da. E esta era uma dessas ocasiões. Tudo para defender o rei.


Colocou o melhor traje, ajeitou o bigode e não pode deixar de notar que não era mais o mesmo de semanas atrás. Estava mais magro e com ar abatido. Já não tinha a imponência costumeira e ressentia-se de não ter um amigo naquele momento. Amigo. Essa palavra deixava-o ainda mais abatido. Tinha um amigo sim, mas não o teria por muito tempo já. Preparava-se para enfrentar a comissão do senado e para salvar a pele, tinha de sacrificar sua rainha. Seu maior aliado e único amigo.

Caminhou lentamente até a mesa e deteve-se olhando para um volumoso dossiê que mandara elaborar, de maneira a encobrir sua participação no caso das mineradoras de Calisto e jogar toda a culpa em Ernesto Chagas, seu correligionário e amigo desde a infância passada na lua de Alberon.

Agora no senado, sediado na Terra por alguma tradição idiota, ele estava novamente em seu território. Por vezes poderia parecer inferiorizado e acuado, mas isso só serviria para baixar a guarda inimiga e abrir caminho para o golpe. Oficiosamente era considerado o homem mais poderoso da republica, da galáxia até, mas do alto dos sues duzentos e vinte nove anos isso já não parecia ter a mesma importância e por vezes, pela manhã, pensou em atirar ao fogo da lareira o dossiê que tinha nas mãos agora, mas a serpente dentro dele acabou por falar mais alto e ali estava, pronto para acabar com o único amigo.

* * *

Dez dias antes:

– Incrí­vel! Por mais que eu pense no assunto não posso deixar de me surpreender com tudo isto. – comentou.

– Pois a situação é essa: A experiência fugiu ao controle e eles dominaram a periferia da galáxia. Ninguém consegue supera-los.

– Fugiu ao controle de quem? Eu ainda estou no controle.

– Mas Será que não vê? A história está se repetindo. Entramos num vortex de tempo e a história se repete em sua essência. Os fatos são outros, o cenário é outro, mas estamos vivenciando as conquistas e atrocidades que eles realizaram, cada qual em seu mundo, em seu tempo. Estão tomando todos os territórios que estão ao seu alcance e breve se encontrarão. Isso pode ser catastrófico.

– Acalme-se, Farias, eu tenho tudo planejado.

– Planejado, planejado como, se nem mesmo os maiores estrategistas militares da republica conseguiram dete-los?

Antonio Carlos, que fora o primeiro a ser clonado naquela experiência, da qual se apossara anos mais tarde, olhou para o monitor que mostrava o espaço profundo com um sorriso estranho nos lábios.
O outro ao perceber que a conversa terminara retirou-se contrariado, sabendo que não tiraria mais nada do velho bigodudo e grisalho. Tinha um ar anacrônico, muito justo alias, já que viera de milhares de anos no passado para mudar o destino da humanidade.

Isso está fora de controle – pensou Farias, de volta àquela estação espacial clandestina nos confins da galáxia, que fora usada, sabe lá Deus por quem, para criar uma tripulação inteira de clones. Tripulação essa controlada posteriormente por Magalhães, que criou por sua vez, esses clones que agora assolavam a galáxia. Vindos do nada e dominando os vice-reinos um a um, aproximavam-se dramaticamente, um da capital do império Gogan, Iuco, e o outro do centro da republica livre de Solaria.

“Não sei qual será o plano de Antonio, mas devo denunciar o projeto e dar as ferramentas para que os estrategistas possam trabalhar”.

Dias mais tarde, com Temudjin na periferia do sistema estelar da capital republicana, uma nave para apenas uma pessoa foi interceptada.

– Tragam o tripulante até mim. – ordenou o bárbaro.

O mongol não era uma copia fiel do Genghis Khan das estepes. Este era muito mais perigoso. Tivera uma educação minuciosamente pensada e planejada para torna-lo o que era e acima de tudo, leal ao “pai”, Antonio. Magalhães secretamente fizera o mesmo trabalho com Alexandre. Eram, ambos,  máquinas de guerra e estrategistas ainda mais brilhantes que seus antecessores. Imbatí­veis, pelo fato de ninguém (fora da estação Freedom) saber que se tratava de clones – forjados sabe lá o brilho da estrela mais distante, por que meios – de vultos lendários da velha Terra, perdida na poeira do espaço, e adversários cuidadosamente equilibrados.

Ambos não tinham conhecimento de sua origem, acreditavam dever suas vidas a Antonio Carlos e não sabiam um do outro, pelo menos não em detalhes. Tiveram os traumas e vitórias de seus antecessores cuidadosamente reproduzidos até o final da adolescência.

Temudjin, por exemplo tivera o pai morto na infância e sofrera a miséria da pobreza em uma colônia mineira com a mãe e os irmãos, até que o velho Magalhães o resgata-se, lhe desse a mão, se tornasse seu pai adotivo e salvador.

Minutos mais tarde Farias era atirado aos pés de Khan, que o reconheceu de imediato.

Ora, ora. Vejam se não estamos diante de Paulo? Eu diria que é bom velo, se já não soubesse que está a serviço de Alex.

– Eu? Eu não estou a serviço de ninguém, só da humanidade.

– A serviço da humanidade estou eu! Eu unificarei todos os povos sob uma só bandeira.

– Mas vocês estão sendo…

– Cale-se. Eu sei muito bem o que vai dizer e sei que Antonio, está do meu lado. Só ordenei sua presença por que Antonio queria vê-lo.

Uma imagem holográfica surgiu no meio da sala e um homem sentado com aparência doente se fez ver, sentado numa cadeira com rodas.

– Amigo, por que e
sta traição? Não sabe que o que estamos fazendo é um sacrifí­cio em nome da humanidade? Alex deve ser detido. Temudjin é o homem certo para governar a galáxia. O império Mongol deve florescer novamente.

– Seu abutre! Temudjin, ele está manipulando vocês.

– Não fale assim com meu pai! – gritou o mongol enquanto atingia Paulo Farias com o punhal. – Tirem este corpo daqui.

Enquanto isso, Antonio estava olhando-se no espelho em seu gabinete no senado. Acabara de voltar de uma secção da comissão de justiça e entregara o dossiê que o colocaria novamente no centro do palco. Logo faria um tratado com Khan e Alexandre, trazendo a “Pax Antonina” ao universo. Esperaria um pouco para provocar um confronto entre os dois, longe dali é claro e depois exterminaria o vencedor com as forças da Republica unidas em torno de seu nome, e o que restaria? Um estado unido e governado pro ele. Tudo estava feito. Agora só restava aguardar o desenrolar dos fatos, porém algo o incomodava.

Vira o melhor amigo morrer diante de seus olhos, pelas mãos de Temusjin e isso estava a doer em seu peito.

Estava solitário e triste, mas nada que um trago do velho Jony, não resolvesse.

Wisky que só o mercado negro do mercado negro poderia conseguir.

Valia mais que alguns plantes.

Coisas de imperador!

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MigX

Engenheiro, funcionário público, metido a escritor e ilustrador... Publicou na Quark, Scarium e e-nigma. Membro fundador da Oficina de Escritores, vem tentando sua própria jornada do herói na vida, e a viagem do escritor, nos blogs e na OE.

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