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Peste – Capítulo II

e-escolhawebBrasília, Esplanada dos Ministérios: 7:20 da manha.

– O que estamos esperando, tio Al? – perguntou Bárbara, a garotinha  ruiva que acabara de acordar e estranhou o fato de ainda estarem no veículo. Seus cabelos ondulados quase cobrindo os olhos.

– Cale-se! – ordenou o patologista, perdendo o controle de seus nervos. Ele não achou que teria que esperar tanto. Todo aquele tempo, olhando para as crianças dormindo… elas eram tão inocentes.

“O demônio tem mil faces” pensou.


Nesse momento, Pedrinho e Camila, acordaram também.

– Tio Al, por que ainda estamos aqui? – foi a vez do menino perguntar.

O doutor se limitou a fazer um muxoxo e lançar um olhar severo para as crianças, que entenderam e não fizeram mais perguntas (por uns instantes). O doutor  tentava esconder, mas as crianças podiam perceber que ele estava muito nervoso. Não parava de olhar: primeiro para o relógio; depois as ruas; as crianças e novamente para o relógio.

– Tio! – tomou coragem novamente o garoto.

– Hum?!

– Estamos esperando alguém?

– Estamos. – respondeu resignado o doutor cansado de mandar que se calassem.

– Quem? – interveio Camila, a mais nova.

– Pelo amor de Deus, será que poderiam ficar caladas?! – esbravejou o homem, o que fez as três crianças começarem a chorar.

*****

Pelo rádio do chefe da segurança, que estava do lado de fora do laboratório , iniciando os trabalhos de busca, se fez ouvir a voz de Tavares:

– Então, o que temos?

– Nada! Chico, não temos chance de alguma,  se não tivermos uma pista a seguir – respondeu sem esperanças o homônimo do doutor.

– Querido! – chamou baixinho, a Sra. Tavares. – Acho que temos algo.

O Dr. Francisco imediatamente desligou o comunicador e voltou-se para a esposa, dando a devida atenção ao que ela tinha a dizer.

– Fale!

– Acho que os anjos a que o Augusto se referiu no bilhete não são os mesmos anjos do céu.

– Não entendo.

– Eu tenho notando, a alguns dias, que o Al anda estranho. Falando em escrituras, fim do mundo… certo dia ele comentou comigo sobre aquele grupo extremista… como é mesmo o nome…

– Anjos do final dos tempos… ou do apocalipse, sei lá. São malucos – interrompeu entendendo subitamente onde a esposa queria chegar.

– Sim, mas acho que nosso amigo, também ficou maluco.

O doutor voltou sua atenção ao rádio novamente e bradou: – Temos que encontrar os “Anjos do Apocalipse”.

*****

O dia estava horrível. O tempo fechara subitamente anunciando uma das raras tempestades.

A chuva fina já começara e Augusto já não sabia o que fazer com as crianças. Estava a ponto de desistir e regressar ao laboratório quando o estranho grupo apareceu.

– Olá! Falou um ruivo baixinho, de aparencia torpe, fazendo sinal para que baixassem o vidro do automóvel, uma velha Combi azul celeste.

– O… Olá! – gaguejou o Dr. Augusto.

As crianças se entreolharam e ficaram mudas.

– Podemos conversar aqui fora, doutor?

Augusto começou a ter dúvidas sobre o que estava fazendo. Eles não pareciam normais. Todos carregavam as marcas do uso prolongado de drogas e da loucura. Desceu cautelosamente do transporte e seguiu na direção indicada pelo líder do grupo.

Pararam a uns dez metros do carro e começaram a conversar sob o olhar atento das três crianças que ficaram para trás.

– Estão todas aí, não é doutor? – inquiriu o membro do grupo que parecia ser o único que tinha língua.

– S… Sim t…todas estão aí. – tartamudeou nervosamente o patologista.

Pedrinho, que já notara que a situação não era nada usual e percebendo uma chance, não teve dúvidas. Chamou as meninas e sorrateiramente saíram da combi. Encostaram cuidadosamente a porta para que o som não as delatasse e partiram escondendo-se rapidamente, atrás de uma edificação próxima.

– Então acho que gostaria do seu pagamento, estou certo? – perguntou ironicamente o ruivo.

– É. Acho q…que está tudo terminado, não é mesmo? – respondeu Augusto desconfiado.

– Então toma! – falou o “Anjo” fazendo um sinal para um ouro membro do bando que se adiantou e num movimento rápido arrancou o capacete do traje bioprotetor que o doutor usava.

– Mas o que pensa que está fazendo, seu idiota. Vai me matar assim. – gritou Augusto desesperado.

– Oh! Não diga uma coisa dessas. – retrucou o sujeito alto e magro que ainda tinha o capacete em uma das mãos, enquanto desferia um golpe fatal de punhal entre as costelas do Dr. Augusto, que tendo o pulmão esquerdo perfurado viu rapidamente sua vida se esvaindo. A inconsciência tomando conta de sua mente, tal qual um manto negro, trazendo a escuridão.

– Pegue as crianças e vamos cair fora. – ordenou o ruivo a uma garota do grupo.

– Jeremias! – chamou a garota do lado da porta da Combi, assustada.

– O que foi?

– Elas… sumiram!

Dentro do veículo só se viam os trajes deixados para trás.

*****

– Vamos! Temos que encontrar o caminho da fazenda – dizia o menino para as duas meninas que o seguiam já sem fôlego.

– Não vamos voltar pro laboratório? Eu quero voltar. – disse Camila, com ar de quem estava prestes a chorar.

– Vocês acham que eles ainda nos querem lá? Mesmo com a maldição que carregamos? – questionou o menino.

– Claro que sim. Outro dia ouvi o tio Chico dizer que éramos muito importantes e que nós somos a esperança de futuro – respondeu Júlia que deveria ter também, como o menino, uns dez ou onze anos.

– É! Isso foi antes da maldição. Depois que todos começaram a morrer por nossa culpa duvido que ele ainda goste de nós – o menino disse essas palavras e enquanto falava os seus olhos, assim como ocorreu com as meninas, encheram-se de lágrimas.

– Mas o que vamos fazer na fazenda? – perguntou chorando Camila.

O menino para. Ele não havia pensado em nada, simplesmente queria voltar para casa. Fugir da maldição.

– Sei não, mas nossa casa é lá, não é? Além do mais, o tio Al e aqueles caras esquisitos devem imaginar que vamos tentar voltar para o laboratório e vão tentar nos pegar no caminho. Se formos para outro lugar, teremos mais chance de escapar. – argumentou o garoto parando para pensar e continuando: – E se a gente voltar todos vão morrer, como o papai, a mamãe e… – o menino foi ao chão  e meteu  a cabeça entre os joelhos, caindo no choro. Tentou, sem sucesso, esconder as lágrimas das meninas.

Centro de Controle de Doenças: 7:40 da manha.

– Doutor! Recebemos uma mensagem do CCD de Nova York. Os dados deles também são insuficientes. Disseram que sem as crianças será impossível – informou Frank, o especialsta em computadores, com seus óculos quebrados e sua eterna expressão de sonolência.

– Diga-lhes que já temos uma equipe atrás delas.

– Lamento doutor, nossa conexão caiu!

– Caiu? Como? Esse sistema não deveria ser a prova de falhas? – inquiriu o chefe do laboratório, o “velho doutor”, incrédulo.

– Deveria sim, mas alguma coisa mudou, ou houve algum problema com a licitação, sabe como eram essas coisas. Vou ativar os sistemas de back-up.

– Seja rápido! – ordenou Tavares dando um olhar preocupado em direção a Jaqueline que parecia bastante descontrolada.Quanto aos problemas com a licitação, sim sabia bem como eram as coisas e de tudo que poderia não funcionar como esperado. Além do mais, o tempo certamente se encarregaria de por fora de serviço váriso dos equpamentos cruciais ao trabalho.

A senhora Tavares perc
ebeu a preocupação dele um tanto entristecida, mas já thavia se habituado a enfrentar aquela garotinha. Sabia que o velho mantinha um relacionamento um tanto próximo em exesso com ela, soubera dias antes da tragédia e não tivera tempo de revelar o que sabia ao esposo.

Depois dos acontecimentos do dia 15 de setembro, lo longínquo 2012, o marido fora atirado numa rotina de tanto trabalho e frustrações que ela achou por bem deixar o assunto para mais tarde. Passarem-se dez anos e ela ainda não falara nada, mas a tristeza, dia após dia, tomava mais espaço.

Proximidades do CCD: 8:00 da manha.

É muito estranho andar por estas ruas sem ver ninguém, não acha? – perguntou, meio que para si mesmo, o jovem rapaz do laboratório de culturas.

– O que disse Gabriel? – perguntou o chefe da expedição ao exterior, e  responsável pela segurança do laboratório, Francisco Bezerra.

– Desculpe. Estava falando sozinho.

– Tenho notado que você anda mais estranho que de costume. O que está havendo?

– Nada! – respondeu laconicamente o rapaz que começara no CCD como estagiário no laboratório de culturas e agora estava ali, vestindo uma roupa que mais parecia um traje espacial e andando pelas ruas, as mais movimentadas de sua infância, agora desertas.

– Vamos lá! Somos amigos, não?

– Você acha que a Jaque e o doutor… acha que… deixa pra lá!

– Tire essa garota da cabeça cara. Ela é encrenca… – interrompeu-se e fez um sinal pedindo silêncio erguendo a mão direita e olhando atenciosamente a sua volta então continuou: – como eu disse ela é encrenca. Vamos andando!

CCD: 13:30.

– Sr. Francisco. O último informe chegou.

– Então?

– Diz que a praga está se espalhando rapidamente, o CCD de Moscou não responde e o de Madri trabalha com metade de sou contingente. Todos querem saber se localizamos as crianças.

– Diga-lhes que estamos fazendo…

– Doutor! – interrompeu o técnico dos sistemas de comunicação com a comunidade dos computadores-nó. Fomos desconectados!

– Droga! Ligue logo os sistemas de back-up. Porcaria de sistema.

– Não Chico. Você não entendeu. Nossa conexão não caiu. Fomos deletados!

Continua…

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MigX

Engenheiro, funcionário público, metido a escritor e ilustrador... Publicou na Quark, Scarium e e-nigma. Membro fundador da Oficina de Escritores, vem tentando sua própria jornada do herói na vida, e a viagem do escritor, nos blogs e na OE.

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