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Peste – Capí­tulo I

e-escolhawebCCD: 13 de maio de 2022, 2:10 da madrugada.

As crianças acharam estranho, pois nunca haviam saido da cama no meio da noite para nenhum tipo de teste; porém estavam habituadas a obedecer ao pessoal do laboratório, sem questionar, e acompanharam, sonolentas, ao Dr. Augusto.

Ele parecia muito inquieto e não olhava diretamente para as três crianças, das quais aprendera a gostar nos últimos tempos. Não podia correr riscos. Tinha medo de fraquejar.

– Pra onde estamos indo? – quis saber Pedrinho, um garotinho de onze anos e inteligência notável.

Augusto não ouviu, ou fez que não, e seguiu a passos largos para a ala sul do laboratório.

– Tio Al, para onde? – insistiu o menino.

– Um teste muito especial. – respondeu, com voz embargada, o atormentado homem, em seu guarda-pó impecável.

Chegaram ao final do corredor que dava acesso a antecâmara sul e o doutor digitou seu código de acesso no terminal de segurança. A escotilha que dava entrada para a sala de descontaminação se abriu e Augusto não pode deixar de observar que a sala parecia especialmente sombria naquela ocasião.nte sombria naquela ocasião.

– Entrem! – ordenou o homem de branco, indicando a câmara com um movimento da mão.

Pedrinho olhou desconfiado para o Dr. Augusto, o segundo no comando do laboratório, e depois para as duas meninas que os acompanhavam, caladas pelo sono, quase dormiam de pé.

– Vamos entrem! – insistiu o homem, olhando para todos os lados como que procurando alguém.

O menino entrou. As meninas o seguiram e por fim o doutor, que suava abundantemente na face e parecia um tanto atrapalhado com os controles para fechar e vedar a escotilha.

– Por que estamos saindo sozinhos? Que tipo de teste vamos fazer? Onde está o Tio Chico? – inquiriu o menino em torrente.

– Acalme-se está tudo bem. – mais tranqüilo, respondeu o doutor, com a escotilha já fechada e repassando os trajes às três crianças.

Estavam do lado de fora. Visivelmente algo fora do normal estava se passando. As luzes estavam apagadas e os trajes não estavam equipados com os transmissores de costume. Pedrinho sentia algo no ar. Embarcaram no transporte do CCD, que estava estacionado bem próximo a saída e partiram com destino incerto.

*****

– Chico! – chamou carinhosamente, a Sra. Tavares.

Meio perdido, o Dr. Francisco Tavares despertou, mais uma vez, sob o olhar amoroso de sua esposa para uma realidade da qual não podia escapar. Mal abriu os olhos e a dureza do ambiente, associada a claridade do local, não o deixaram enganar-se.

– Bom dia querida. – disse retribuindo o olhar com um sorriso cansado. Levantou-se e caminhou até a única e pequena janela do local que dava uma visão do exterior. O mau humor já o invadindo.

A visão era desoladora. O sol nascendo radiante e o mundo deserto sem ninguém para ver o espetáculo já há doze anos, desde o holocausto bacteriológico. Ele estava cansado demais para continuar, mas não tinha outra alternativa.

– Dormiu bem? – quis saber a esposa, ao ve-lo mais cansado do que de costume.

– Tudo bem. – respondeu Francisco depois de fazer um muxoxo. – É inacreditável o que fizemos, não é? – perguntou sem esperar resposta. A voz saindo como se de uma cavérna profunda.

A esposa aproximou-se da janela também, abraçando o marido por trás e perdeu-se naquele abraço. Quanta saudade dos anos passados.

– Como pudemos, Vívian?! Como pudemos permitir que interesses econômicos se sobrepusessem as necessidades das pessoa… humanidade?!

A esposa limitou-se a apertar o abraço.

– Agora, tudo que temos é um planeta infestado. – o doutor referia-se a contaminação pelo vírus mutante, resultado das múltiplas reações ocorridas na atmosfera com o que restou das armas bacteriológicas usadas na última grande guerra. Parou por um instante e concluiu em meio a um suspiro: – Esse vírus nos roubou a humanidade.

A união Islâmica iniciara naqueles tempos os ataques bacteriológicos como último recurso. Tentativa desesperada de manter sua cultura e liberdade. Algum fator não previsto provocou as mutações e a variedade de germes que surgiu se mostrou imune a todos os elementos disponíveis. Espalhou-se pelo planeta com uma velocidade inimaginável e demonstrou que a velha máxima: “na guerra não há vencedores” era, finalmente, uma nefasta realidade. Para todos.

Pequenos núcleos de resistência sobreviviam aqui e ali: nos subterrâneos das grandes cidades, em abrigos nas fazendas, atrás das barreiras bacteriológicas dos laboratórios e hospitais, buscando de alguma maneira encontrar os meios que lhes devolveriam o controle do planeta.

Esses grupos sobreviviam isolados, sem poder sair às ruas. A exceção eram as equipes dos CCDs – centros de controle de doenças – que tinham os equipamentos apropriados para o trabalho e outros raros casos isolados.

O Dr. Tavares, membro do CCD de Brasília, que nunca fora o maior, nem o melhor, teve a oportunidade de trancafiar-se nos laboratórios de nível 7 e iniciar uma corrida contra o tempo e as circunstâncias e tentar desenvolver um soro capaz de devolver a humanidade a superfície do planeta.

O trabalho mostrou-se esteril e praticamente sem chances de sucesso até que encontraram aquelas pobres crianças há algumas semanas. Elas, por algum motivo ainda desconhecido, eram imunes ao vírus. As únicas criaturas humanas, já registradas na comunidade dos Computadores-Nó, que não sofriam em contato com a doença, a chamada “praga-da-guerra”. Serviam de ponto de referência para os trabalhos de todo o corpo técnico ali reunido e o dos outros grupos, em diversos centros pelo mundo, na tentativa de descobrir um caminho para a humanidade.

Nem tudo eram flores depois da chegada das crianças ao laboratório. Não obstante o empenho da equipe, a doença espalhou-se entre seus membros, que morriam um a um, dia após dia. O doutor se via a cada dia mais pressionado pelas circunstâncias e lhe parecia cada vez mais difícil manter as esperanças.

– Doutor! Doutor! – gritos o tiraram de seus devaneios matinais e o levaram correndo até a sala de recreação, que agora funcionava como Q.G. das operações do CCD.

– O que foi que houve? – perguntou receoso da resposta.

– As crianças Chico! As crianças!

– O que tem elas?

O pessoal reunido trocou olhares, como que não querendo dar a notícia, esperando que outro se manifestasse. Como ninguém mais parecia disposto, Jaqueline, a mais brilhante e bela estagiária que o CCD já conhecera, na opinião de todos e particularmente do doutor, falou:

– Sumiram, Doutor. Juntamente com o doutor Augusto e nosso transporte!

– Como sumiram?

– Eu suspeito de seqüestro! – interveio o patologista, Dr. Freitas. Um homem franzino e cujo estrabismo disfarçava sua inteligência. não sem que ele soubesse.

– Quero todo o pessoal disponível lá fora! – ordenou o chefe do laboratório no instante em que os alarmes começaram a soar. Todas as pessoas não ligadas diretamente as pesquisas eram consideradas disponíveis num momento desses e sabiam disso. Mesmo porque não havia trajes suficientes para todos.

Correram em meio aos alarmes e luzes vermelhas piscando por todo o complexo para as câmaras de descontaminação e em questão de poucos minutos, estavam no exterior iniciando as buscas.

Alguns dos envolvidos não se sentiam bem do lado de fora. Tinham a sensação de estar ficando doentes e não estavam mais acostumados a ver o céu azul sobre suas cabeças, mas tinham que realizar seu trabalho e esse trabalho, no momento, resumia-se a levar as crianças de volta.

– Acho que o Augusto as levou. – disse a voz do assistente de manutenção ,Pedro de Almei
da, saída dos alto-falantes do comunicador no console diante do Dr. Tavares.

– Não acredito. Por que chegou a essa conclusão tão rápido? – quis saber contrariado pela afronta ao amigo.

– Bom. Tudo indica que as crianças forem levadas por ele. Já que ninguém poderia entrar sem ajuda de dentro e como o doutor Augusto sumiu… Além do mais, não há sinais de violência em parte alguma.

O grupo de buscas estava reunido tentando traçar uma estratégia. Estavam em flagrante desvantagem, pois o CCD não dispunha de um segundo transporte e não sabiam a quanto tempo eles teriam partido nem tinham a menor pista da direção a seguir.

– Doutor! Encontramos isto no alojamento do Augusto. – disse a estagiária, estendendo a mão com um pedaço de papel amarrotado na direção de Francis. Era assim que gostava de chama-lo quando estavam a sós.

O Doutor leu o bilhete rapidamente e retirou-se. Não queria que ninguém o visse chorar.

Sob o som estridente dos alarmes, que ainda soavam nos laboratórios, e a luz oscilante de alerta, o doutor leu novamente o bilhete em que seu assessor e amigo de tantos anos tomava para si a responsabilidade.

“Amigo! Estas crianças estão nos matando e afinal de contas, ninguém deve tentar mudar o que está escrito, Chico. Os anjos sabem o que deve ser feito. Ass.: Augusto.”

Continua…

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MigX

Engenheiro, funcionário público, metido a escritor e ilustrador... Publicou na Quark, Scarium e e-nigma. Membro fundador da Oficina de Escritores, vem tentando sua própria jornada do herói na vida, e a viagem do escritor, nos blogs e na OE.

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