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O fantástico mundo real da Ficção Cientí­fica

No ano de 1938, um jovem locutor de rádio estarreceu a opinião pública americana ao levar ao ar um programa inédito. O gênio Orson Welles (que se tornaria um dos mais prestigiados diretores de cinema de todos os tempos) apresentou uma adaptação do clássico de Ficção Cientí­fica Guerra dos Mundos (War of the Worlds – 1898) de H. G. Wells. Era o primeiro grande sucesso da Ficção Cientí­fica a alcançar o grande público e o fez de maneira nunca mais igualada.

Surpreendidas pela novela que narrava a invasão da Terra por marcianos, apresentada em tom jornalí­stico de grande densidade dramática, centenas de pessoas fugiram de suas casas buscando refúgio enquanto outras se armavam para defender seus lares e suas famí­lias. Até mesmo alguns centros militares mantiveram-se em estado de alerta até que toda a confusão se esclarecesse.

O episódio serviu para comprovar algo que os estudiosos da ficção cientí­fica não se cansam de demonstrar e que o público, dito culto, recusa em aceitar. A ficção cientí­fica não é um fenômeno marginal dedicado a preencher os sonhos juvenis de fantasias absurdas e inverossí­meis.

Não! A FC é um segmento artí­stico da ficção em geral, manifestada em todas as artes e culturas humanas.

Quando em 1938, as pessoas saí­ram correndo de suas casas elas não fugiam porque eram fissuradas em estórias de FC, fugiram porque tinham medo. O mesmo medo que fez os judeus fugirem da Alemanha Nazista, os russos fugirem da revolução Bolchevique, e mais recentemente os Hutus do governo Tutsi no Zaire.

A FC não é literatura de fantástico. Situa-se no limiar entre ciência e mistério como ambiente para descrever aquilo que de outra forma não seria percebido facilmente e assim especular livremente sobre as possibilidades futuras.

Ela mudou ao longo do tempo, assim como mudaram os ideais e princí­pios que regem as relações humanas. Quando surgiu como ramo literário em meados do século XIX o homem começava a desvendar os insondáveis mistérios que séculos de existência haviam relegado ao plano divino (Frankenstain, O Médico e o Mostro, etc).

Progressivamente a ciência tornou-se capaz de provar a estrutura da matéria, a evolução da vida e das espécies, as entranhas das formas vivas, os mistérios da mente, e tantos outros que haviam povoado a imaginação humana (A Ilha do Dr. Moreau, Guerra dos Mundos, A Máquina do Tempo, 20000 Léguas Submarinas, Da Terra à Lua, etc).

Neste ambiente, os escritores tinham um enfoque que favorecia a abordagem da ciência e de seus frutos tecnológicos e estes se tornaram seus temas principais (originando-se aí­ a nomenclatura Ficção Cientí­fica).

Nos anos cinqüenta, com o transcorrer da guerra fria, as atenções se voltavam para a possibilidade de um ataque iminente das forças inimigas bem como da possí­vel extinção da vida sobre a terra derivada de um confronto nuclear. A FC adaptou-se a este clima e criou inúmeras estórias sobre invasões aliení­genas e confrontos entre o bem e o mal (O dia em que a Terra Parou, Dr. Fantástico, O Berço dos Super-Humanos, etc.).

Mais recentemente, o homem passou a ter uma abordagem mais ecológica e altruí­sta, novamente a FC passou a retratar tais sentimentos através de simpáticos aliení­genas dedicados a colaborar com os homens na busca de um plano superior de existência (ET – O Extraterrestre, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Jornada nas Estrelas, 2001 – Odisséia Espacial, etc.).

Nota-se entretanto que por trás da ciência abordada nas obras desde o princí­pio o objetivo não era descrever a ciência pura e simplesmente. O enfoque central era sempre o Homem frente às possibilidades cientí­ficas, uma luta constante entre o bem e o mal em que a ciência e a tecnologia eram os instrumentos capazes de promover tanto um quanto o outro.

Um excelente exemplo de como a FC mudou é ler a série completa de Arthur C. Clarke iniciada com Encontro com Rama. Neste primeiro livro a narrativa transcorre apresentando os mistérios e maravilhas tecnológicas a bordo de uma gigantesca nave aliení­gena que penetrou nosso sistema solar. Ela veio e partiu deixando mais perguntas que respostas e conquistou os maiores prêmios literários para seu autor.

Como a obra apresentasse premissas que permitiam o desenvolvimento de um amplo leque de perspectivas cientí­ficas e humanitárias, Clarke decidiu escrever outros três livros para elucidar o mistério de Rama e seus ocupantes. O segundo livro, escrito aproximadamente vinte anos após o primeiro, mostra que se o mundo mudou, seu autor também. Ainda estão lá as minuciosas descrições cientí­ficas que apaixonam os leitores de Clarke. Mas também está presente uma dura e contundente análise polí­tica e sociológica de nossos tempos na qual o autor tenta mostrar que o homem estará sempre a repetir os mesmos erros do passado. Mas otimista como é, ele deixa aberta a possibilidade de vencermos nossos defeitos e construirmos um mundo melhor.

Note-se, um dos mais consagrados autores de todos os tempos deixa claro em suas obras que FC não é diferente de outros gêneros, apenas usa ambientes futurí­sticos para avaliar possibilidades mais amplas que se tornariam impossí­veis devido à complexidade dos fatos.

Em A mão esquerda da escuridão de Ursula K. Le Guin temos uma excelente exemplo. Neste livro a autora desejou falar da importância do amor e da amizade e da tênue diferença que ocasionalmente existe entre elas. Para alcançar seu objetivo ela descreve a chegada do primeiro ser humano a um planeta habitado por uma espécie andrógina e o relacionamento entre este e seu anfitrião. Os membros desta espécie seriam assexuados a maior parte do tempo, mas durante a época de reprodução teriam a capacidade de assumir tanto o sexo masculino como o feminino dependendo apenas da tendência de transmutação do parceiro. Ao descrever a situação em que, o que parecia um homem, transforma-se progressivamente numa mulher e assim desperta a afeição do personagem principal, Le Guin mostra com beleza o valor da amizade.

Seria possí­vel escrever uma obra assim sem o mundo fantástico propiciado pela FC?

Um dos episódios da série de TV Babylon 5 tinha um enredo mais ou menos assim: Um casal aliení­gena chega à estação espacial Babylon 5 em busca de auxí­lio médico para seu filho que corre um sério risco de vida. O médico sugere uma cirurgia como o meio mais rápido e efetivo de resolver o problema, mas os pais da criança se recusam a aceitar o tratamento sob pena do menino perder sua “alma”. Ocorre que a crença religiosa deles diz que o corpo abriga a “alma” assim sendo, se o mesmo fosse aberto, esta partiria para sempre.

Diante da negativa dos pais, o médico rende-se a sua promessa de salvar vidas e opera o menino. Quando os pais encontram a criança saudável e feliz, definitivamente fora de perigo, rejeitam-na como se ela estivesse possuí­da por um demônio. Eles levam o menino para submetê-lo a um ritual de purificação que o médico descobre depois nada mais é do que o sacrifí­cio do corpo para que este encontre a alma que já partiu.

Pois bem, este enredo ficcional não é uma estória inédita, tampouco foi originalmente
concebida como ficção. Ela, com variações, ocorre todos os dias em diversos hospitais ao redor do mundo. Pessoas morrem sem assistência sob a tutela de princí­pios religiosos. Não foram poucos os casos na história recente de nosso paí­s em que crianças perderam a vida porque os pais recusaram-se a permitir que elas recebessem uma transfusão de sangue.

Ora, mas porque tratar de um assunto como este em uma obra de FC. Porque não fazer um daqueles dramas televisivos que costumamos ver na programação dos sábados à noite?

Porque se assim fosse você não assistiria. Diria apenas, “ora a criança vai morrer no final”, ou então “como sempre tudo vai acabar bem”. Com FC as pessoas olham para o conteúdo e não dão valor às aparências. Elas se concentram no cerne das questões.

Então, temos que a ficção cientí­fica apenas recorre aos mesmos temas e princí­pios que todas as obras de ficção em geral. Apenas situa-se em ambientes futurí­sticos com personagens inimagináveis de modo a destacar, tornando mais clara, a mensagem que quer transmitir. Ela continua a tratar dos mesmos medos e anseios do homem. Apenas isola estes temas em uma câmara de espaço-tempo para que eles possam ser analisados sem preconceitos e tabus.

Assim, pobres e limitados espectadores que somos, sentimo-nos livres de nossos preconceitos e amarras morais e sociais para fazer um mea-culpa e quem sabe tomar atitudes que nos permitam construir um mundo melhor.

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MigX

Engenheiro, funcionário público, metido a escritor e ilustrador... Publicou na Quark, Scarium e e-nigma. Membro fundador da Oficina de Escritores, vem tentando sua própria jornada do herói na vida, e a viagem do escritor, nos blogs e na OE.

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