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O Dia da Caça

Tudo estava calmo, agora. A cidade já dormia e as luzes estavam apagadas. Sua figura indistinta e obscura, deslizava pela escuridão, silenciosa.
Ao longe, ouviam-se os ruídos que os animais, outrora domésticos, faziam em sua luta quase selvagem, pelo alimento que sustentava suas vidas miseráveis. Hoje um animal, que ontem era visto com olhos cheios de alegria, seria observado com temeridade, pois o que fora um inocente cão de guarda em outra época, tornara-se uma fera capas de destroçar em segundos sua presa, para saciar sua fome e a de seu bando.

Todos eram caça e caçador então.

Cães caçando cães, homens caçando homens.
Ele observava a escuridão atentamente, com seus grandes olhos negro sem Íris. Durante a noite via melhor que um gato. Gatos eram o que não faltava naquelas noites. Também já não eram mais os mesmos. Haviam se transformado em animais mais traiçoeiros de que sujeira a tradição e o som de sua luta impiedosa, pelas fêmeas da espécie, enchia as madrugadas do mundo inteiro.
O traje negro o tornava quase invisível, fazendo com que se confundisse com as sombras do lugar. Uma dor leve no ventre o fez recordar que já a dias não se alimentava. A caça estava, dia a dia, tornando-se mais difícil, mas ele era o mais impiedoso e poderoso dos predadores. Encontraria algo… cedo ou tarde.
Um movimento imperceptível, a olhos meramente humanos, a uns cem metros a sua frente chamou-lhe a atenção. Ágil e silenciosamente deslizou até uma fenda no edifício mais próximo e observou. Era um homem, sua presa favorita, e estava só. Seria um objetivo fácil. Rastejando de sombra em sombra, de beco em beco, foi chagando cada vez mais perto.
O humano maltrapilho revolvia as lixeiras, aparentemente em busca de algo que lhe acalma-se a fome. Distraidamente, ignorante de seu destino. Descia a ladeira sem deixar nem mesmo uma lata sem ser vistoriada. Pegou alguma coisa viscosa de uma delas, a cheirou, e com expressão de desagrado, a levou a boca. Sentiu um calafrio correr-lhe a espinha de cima a baixo. Era o aviso pelo qual esperava. Segurou firmemente a borda da lata a sua frente, encheu os pulmões de ar e, de esguelha, tentou localizar a fonte daquela súbita injeção de adrenalina em sua corrente sangüínea.
Não se tratava de um humano comum. Tinha os sentidos altamente desenvolvidos, inclusive a intuição tão pouco usada pelos de sua espécie. Foram desenvolvidos com treinamento e não por força de uma mutagênese fortuita como e que deu origem aquele tipo de criatura que agora estava a fareja-lo.
Com um movimento rápido, puxou a lata atirando-a ao chão atras de si, espalhando toda aquela sujeira e podridão, saindo em disparada logo a seguir. Era um homem forte, acima da média, mas sabia, que não tinha muito tempo. O predador já devia estar aproximando velozmente suas presas putrefactas da carne de seu corpo. Não queria morrer, porem sabia que todos tinham que dar sua cota e ele era o único capaz de realizar aquele trabalho com uma pequena chance de sobreviver.
Corria freneticamente pelas ruas estreitas, derrubando latas e saltando os obstáculos com a maior habilidade possível, contudo podia sentir a respiração ofegante do caçador que já quase o alcançava. Não tinha muito tempo. Virou uma esquina e saltou uma vala encoberta por caixas. Pode ouvir o rugido de seu perseguidor quando este caiu lá dentro. Ganhara alguns segundos, mas sabia que era só. Aquilo não o deteria.
O predador, ao sair da vala, começou a correr ainda mais rápido, mais rápido, mais rápido… Já podia sentir o rastro de medo deixado para traz por aquele pobre e frágil humano morto. Sim ele já estava morto. Não tinha a menor chance. Tudo estava terminando. Aquela dor horrível finalmente iria embora, a fome acabaria. Fez um esforço final e com um salto caiu sobre a presa, que golpeou a cabeça no chão e perdeu os sentidos. Com as garras presas as costas do homem no chão, ergueu a cabeça e emitiu um rugido aterrador. O capuz de sua capa caiu e o que se viu foi a face de um homem. Um homem torturado. Torturado pela dor. Pelo pior tipo delas. Por aquela provocada pela solidão absoluta. O rosto era pálido e os cabelos ruivos e longos. Os olhos… os olhos sem Íris eram frios… vazios.
Quando começava a baixar a cabeça para desferir o golpe fatal, uma lágrima surgiu no canto do seu olho e ela foi repentinamente iluminada por meia dúzia de holofotes de alta potência. Aquilo o cegou e o mundo tornou-se apenas sons, por alguns instantes, e em seguida veio um golpe. Algo pesado o atingira na nuca. Um rugido. Uma tentativa desesperada de sair dali. Outro golpe… e outro… e então veio o silêncio. O silêncio e a escuridão.
Um último pensamento passou por sua mente: “Enfim a paz… enfim a dor se foi… “
Na noite escura, vários homens maltrapilhos festejavam em torno dos holofotes agora apagados. Um deles recebia curativos, na cabaça e nas costas, de uma mulher que aparentava ser sua mão e era olhado com admiração por outra que deveria ser sua companheira.
A festa se prolongaria por várias horas ainda. A alegria era justificada. Varias famílias teriam o que comer. Hoje!

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MigX

Engenheiro, funcionário público, metido a escritor e ilustrador... Publicou na Quark, Scarium e e-nigma. Membro fundador da Oficina de Escritores, vem tentando sua própria jornada do herói na vida, e a viagem do escritor, nos blogs e na OE.

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