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Coração de Metal – Parte – 3/3

coracaodemetal1Jorge chegou da recepção horas mais tarde que seu amigo e o encontrou andando de um lado para o outro do luxuoso quarto que fora colocado a sua disposição enquanto permanecessem ali.

– Olá, amigo. O que faz em meu quarto? – inquiriu o ex-primeiro oficial da armada da federação. Que saudades tinha desse título e só deixara de usa-lo fazia dez dias.

– Eu tenho, – sussurrou depois de ligar uma música, para tentar evitar as escutas que estavam certos deviam estar instaladas por toda parte.

– O que?

– A filha do Capo, Bárbara. Ela me deu as coordenadas. Quando eu perdia as esperanças, por não termos nenhuma liberdade de ação pro aqui, ela vem e me coloca a informação nas mãos.

Ambos ficaram se olhando sem fala por alguns instantes então Jorge quebrou o silêncio:

– Temos que levar essa informação para fora daqui.

– Eu sei. Já dei uma olhada e pela data, deve faltar muito pouco. Temos que sair daqui hoje. No máximo, amanha.

– Como faremos isso? – quis saber Jorge, falando cada vez mais baixo.

– Temos que sair e levar nossa nave.

– Acha que teremos alguma chance de escapar daqui? – inquiriu o amigo, incrédulo.

– Não temos escolha. Essa é nossa força!

******

A conversa do dia anterior estendera-se por várias horas. Planejaram tudo. Alguns teriam que arriscar-se e chamar a atenção para que os outros pudessem invadir um transporte e roubar pelo menos um caça para que tivessem a mínima de chance de alcançarem a Soyus.

Julian quis, antes de dar inicio a operação, despedir-se de Bárbara e sem saber tomou a atitude que colocou toda a atenção sobre si. O Capo havia ficado desconfiado na noite anterior e com Julian procurando por Bárbara, fixou ainda mais sua atenção nele.

Os dois encontraram-se em um jardim artificial e foram vigiados de perto, porém discretamente por vários homens de confiança do Sr. Cadorin, até que um tumulto nos hangares os fez saírem dali.

– Nós mal nos conhecemos, mas… – ele não sabia se seria correto expô-la aos perigos que tinham a enfrentar, mas não resistiu ao seu coração. – Venha comigo.

– Ir com você? Do que está falando?

– Nós voltaremos ao espaço hoje. Já está começando, percebe? – perguntou mostrando o jardim sem guardas.

– Começando?

– Meus amigos devem estar invadindo os reatores neste momento.

– Por que pensa que não vou denuncia-lo a meu pai?

– Não teria me passado as coordenadas se quisesse me entregar – respondeu Julian, receoso de que aquilo fosse apenas um teste.

– Vou com você, mas prometa-me uma coisa. – pediu a garota com os olhos em chamas.

– O que?

– Deixe este lugar intacto. Cresci aqui e minha mãe e pai vivem aqui.

– Está bem, mas vamos sair daqui. – disse o rapaz puxando-a pelo braço discretamente ate que puderam correr escondidos pelas arvores.

Em minutos estavam próximos ao hangar “B”, por onde iriam escapar, juntamente com alguns dos outros para chagarem à Soyus.

– Temos que pegar um transporte e um ou dois caças. Conseguiram armas? – quis saber o, novamente, capitão.

– Somente estas aqui – respondeu o oficial de comunicações Petrolov, mostrando três armas de mão.

– Com isso não vai ser fácil, mas é o que temos – observou Julian. – Vamos logo que temos que resgatar o Jorge e os outros no “D”.

O capitão deu um beijo em Bárbara e fez sinal com a mão para que ficasse abaixada.

Sorrateiramente, o grupo de oito homens e duas mulheres foi se aproximando das naves. Separou-se. Um grupo de quatro, foi para a torre de comando, onde rendou facilmente os operadores desprevenidos e os trancou num armário de equipamentos. Outro grupo de quatro invadiu uma nave de transporte que para surpresa deles estava desguarnecida e os outros dois foram para os caças que estavam sendo revisados por um mecânico magrelo, que ao perceber a ação tratou logo de cair fora, mas foi impedido por um negro corpulento, oficial de segurança da Soyus, que o atirou dentro de um enorme tanque vazio.

As naves estavam em poder dos federados. Julian correu com cuidado para buscar Bárbara e descobriu com tristeza que ela fugira. Logo estava dentro do transporte com os outros. Os quatro da torre de controle acionaram as comportas de decolagem e se apressarem para unir-se aos demais.

Nesse momento uma avalanche de soldados do Pacto adentrou o hangar e preparava-se para obstruir a comporta, quando uma explosão os atirou para longe. Alguns atordoados, muitos feridos, a maioria morta.

– Que foi isso? – perguntou Julian.

– Um presente surpresa, chefe! Há, há, há!!! – gritava, José o oficial de segurança. – Gostou?

– Muito, José. Muito!

As naves decolaram em meio a fumaça e poeira. Por sorte passaram pela fresta da comporta e logo que logo que saíram da redoma puderam localizar facilmente o hangar “D” pois o mesmo estava jogando para fora um jato de ar indicando que também tinha recebido um tratamento todo especial de José.

O transporte entrou sem dificuldades no hangar completamente destruído, enquanto os caças davam rajadas de laser para evitar a aproximação de algum eventual soldado que não se via por ali. O grupo, que lá esperava, não era mais de quatro pessoas e sim de três. Quando entraram, Julian ficou esperando que sue amigo, seu irmão entrasse.

– Ele se foi – disse uma voz feminina lamuriante.

Julian ficou desconcertado por alguns segundos. Deixou-se cair numa cadeira enquanto o transporte decolava em meio aos tiros dos caças.

Quando iniciavam a subida rumo ao cruzador, como um enxame de abelhas, surgem de trás de alguns asteróides próximos, várias naves caça do Pacto. Cada vez mais naves até que o espaço parecia lotado.

Para sorte do grupo federado, o intuito daquele mar de naves não era proteger a Soyus de um ataque partindo do asteróide cede e sim de assaltos vindos do exterior. Por isso os caças estavam relativamente distantes. Nada em escala astronômica, mas o suficiente para lhes garantir a dianteira que precisavam para entrar novamente no cruzador.

No momento a Soyus estava ocupada apenas por cientistas, contratados pelo Pacto, para decifrarem os segredos tecnológicos da máquina e não opuseram resistência, zelando pelas próprias vidas.

Cinco caças tentaram pousar, mas acabaram colidindo contra o casco do cruzador e apenas inutilizaram o hangar. Logo a Soyus estava novamente aquecendo os reatores e sob comando da federação, ou pelo menos de homens fiéis a ela.

– Levantem os escudos – ordenou Kraff, muito abalado com a morte de Jorge. – Temos berquélio suficiente para um salto?

– Sim senhor – respondeu enfática, Miriam, oficial calculista de primeira classe.

– Então, vamos para o mais próximo que puder nos levar de Saturno.

Dali por diante a Soyus fez o resto. Realmente o Almirante Luneiev tinha razão. A nave resistira sem dificuldades aos ataques das fragatas do Pacto, e escapara da perseguição de dois destróieres classe A sem maiores problemas. Era uma bela nave, pensava Julina, agora.

******

Em Dione o alto da colina era o lugar ideal para alguém que quisesse observar a vida a distancia. Podia-se ver e não ver ao mesmo tempo. A vida nos dias atuais não era coisa que alguém quisesse ver muito de perto. A morte estava em todo lugar esperando que alguém fraquejasse.

Bren era o irmão mais jovem de Julian e estava alcançando a idade do recrutamento, seus pensamentos, porém seguiam em outra direção. Ele estava preocupado com outros assuntos. Como ajudar sua família e seu pequeno mundo. Não sabia como Julian, seu irmão, receberia a idéia de que ele, o irmão do sujeito mais badalado da armada não queria servir a federação. Um grito interrompeu seus pensamentos.

– Bren! Bren! – gritava a distância, uma figura gorda e esfarrapada.

– Estou indo. – respondeu ele, também com um grito. Levantou-se tirou a poeira de seus trajes, também puídos, batendo com a mão por toda parte e correu em direção àquela figura que o chamava muito apreensiva.

– O que houve, tia? – perguntou ele aflito.

Bren a muito não via sua tia em tal estado, afinal a vida em Dione era difícil, mas ao mesmo tempo monótona. O que provocaria tal mudança naquela mulher dócil e sofrida que durante sua longa vida já tinha visto a maior parte de seus velhos amigos morrerem? Não tinha mais ninguém em lugar algum. Só ele e… Julian! Um pensamento terrível o abalou. Teria acontecido alguma coisa a seu irmão?

Com esse pensamento ecoando em sua cabeça, correu como louco os setenta metros, que o separavam de sua tia Mabel.

– Ele… – começou.

– Acalme-se. – disse ela energicamente. – É grave, mas não é o que você pensa.

– O que é? O que é? – perguntou muito nervoso.

– Ele esta sendo caçado por todo o sistema por naves do Pacto. Parece que ele roubou uma nave muito importante… Não sei bem. A transmissão foi interrompida.

– Então ele está vivo?

– Não tenho certeza, mas você conhece seu irmão. Ele não é fácil.

– Uma esperança! Devia ter me acostumado. É só o que tomos aqui para viver?

O garoto estava muito revoltado. Não podia e não queria, aceitar as coisas como estavam, mas agora uma idéia bastante reconfortante lhe vinha a cabeça.

– Tia venha comigo – disse já saindo em disparada.

Depois de esforçar-se para correr cerca de duzentos metros a senhora já maltratada pela idade conseguiu chegar a casa um bom tempo depois que Bren. Este já estava diante de um armário escancarado em seu quarto e onde se podia ver um painel que a tia Mabel jamais havia visto antes e por instantes não compreendeu de que se tratava, mas a pesar de sua educação simples e sua vida de campônia ela era inteligente e logo reconheceu o equipamento. Tratava-se de um transmissor. Já havia visto um na cooperativa nos tempos em que o comércio era abundante, mas este era diferente e tinha a insígnia da federação.

– O que está fazendo? – perguntou aflita.

– Tudo está bem. Fique calma – Disse ele sem dar maiores explicações e fazendo um gesto para que a tia fizesse silêncio.

O garoto tentou e tentou, mas não consegui contato com o irmão pelo velho rádio federado e isso o deixou ainda mais apreensivo.

******

– Lá está ele – apontou Lara, oficial de telemetria.

– Incrível! É enorme – comentou, José.

Senhor uma comunicação no canal dois.

– Abra na tela grande – solicitou, Julina.

Uma grande tala surgiu diante da ponte e nela a face apreensiva do Almirante Luneiev.

– Nossa! Mal posso crer no que vejo – exclamou o velho Almirante agora com uma expressão de satisfação na face.

– Estamos de volta, senhor – disse Julian fazendo continência com prazer de quem acaba se sair da academia.

– Trouxeram minha belezinha de volta. Isso vai reduzir as suas penas por insubordinação – observou sardônico. – Eu já estava com o dedo no botão vermelho para por esse vazo fora de ação.

– Ele é da federação novamente senhor – observou, com orgulho Julian. – Assim como o coração de metal daquela coisa, também será.

– Senhores! Façam seu trabalho – disse o velho e sua imagem desapareceu.

Julian observou por alguns instantes o cometa, pensando em seu amigo Jorge, um bravo, e ordenou:

– Baixar escudos.

– Escudos baixos senhor – respondeu o operador.

– Disparem os mísseis atômicos.

******

– Bren! Bren! – chamou novamente a tia Mabel.

– Que foi tia? – perguntou o menino colocando a cabeça para fora da janela sem precisar de resposta diante do espetáculo que viu no céu.

Uma imensa e silenciosa mancha luminosa enchia um terço do céu esverdeado que Dione adquirira depois da terraformação. E inúmeros raios de luz eram vistos quando alguns fragmentos atingiam a atmosfera. O espetáculo estendeu-se até o inicio da noite e transformou-se em festa na colônia. Mais tarde, Mabel e Bren, tiveram outra surpresa.

******

– Julian! – disse Bren, correndo para dar-lhe um abraço.

– Nossa irmãozinho você cresceu um bocado. – observou o irmão mais velho enquanto olhava o garoto. – É muito bom estar aqui – continuou Julian. Onde está a tia Mabel?

– Na casa, assustada – respondeu Bren.

– Nossa que saudade!

Julian partiu em direção a casa onde passara sua infância caminhando a passos curtos e lentos. Quando Mabel o viu parado à porta, imediatamente seus olhos encheram-se de lágrimas e correu para um forte abraço. Os dois abraçaram-se e choraram, então ela o empurrou para longe para olhar para ele e disse em meio a lágrimas, gargalhadas e soluços: – Meu Deus! Como você cresceu!

Mais tarde um volta da fogueira, Julian contava sobre a aventura.

– E nada disso teria sido possível sem a coragem de Jorge e Bárbara – concluiu pensando no velho amigo e na garota que para sempre estaria do outro lado do abismo.

******

O Pacto, com os ataques realizados contra o cruzador Soyus, deixou clara sua posição de beligerância contra a federação, que por sua vez, não tardou em usar isso para enfraquecer as empresas do grupo diante da opinião publica. E aos poucos foi perdendo o domínio comercial e político e tornando-se uma figura jurídica sem importância.

Os dias áureos da federação estavam voltando e com eles a prosperidade do povo.

Até que mais alguns inescrupulosos chegassem ao poder.

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MigX

Engenheiro, funcionário público, metido a escritor e ilustrador... Publicou na Quark, Scarium e e-nigma. Membro fundador da Oficina de Escritores, vem tentando sua própria jornada do herói na vida, e a viagem do escritor, nos blogs e na OE.

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